a mecânica da inveja
A teoria de mundo por trás da inveja é a de que o mundo tem uma quantidade limitada e não reprodutível de felicidade, gozo, bem-estar, prazer. Os triunfos de Napoleão, quando ouço falar deles, me roubam por um instante da possibilidade de qualquer triunfo. Se leio uma frase bem-feita, que diz muito bem alguma coisa, pouco me importa que eu tenha à minha disposição a linguagem, para fazer eu mesmo frases eventualmente felizes também — o que eu tenho é só a metade, o potencial, e não a coisa feita, que é o que desejo. O desfrute que aquele tem, ou declara ter, das coisas da natureza, me priva da capacidade de desfrutá-la (eu que um segundo antes nem atentava para isso, nem procurava a natureza e nem sentia saudades dela). A inveja intelige o pacote completo: a coisa e o desfrute dela, a coisa e a posse que dela se tem. Se aquele está cheio de mulheres bonitas, as mulheres que circulam pelo mundo parecem no instante da inveja canceladas para mim — elas não têm a posse que as torna co...