a mecânica da inveja

A teoria de mundo por trás da inveja é a de que o mundo tem uma quantidade limitada e não reprodutível de felicidade, gozo, bem-estar, prazer. Os triunfos de Napoleão, quando ouço falar deles, me roubam por um instante da possibilidade de qualquer triunfo. Se leio uma frase bem-feita, que diz muito bem alguma coisa, pouco me importa que eu tenha à minha disposição a linguagem, para fazer eu mesmo frases eventualmente felizes também — o que eu tenho é só a metade, o potencial, e não a coisa feita, que é o que desejo. 

O desfrute que aquele tem, ou declara ter, das coisas da natureza, me priva da capacidade de desfrutá-la (eu que um segundo antes nem atentava para isso, nem procurava a natureza e nem sentia saudades dela). A inveja intelige o pacote completo: a coisa e o desfrute dela, a coisa e a posse que dela se tem. Se aquele está cheio de mulheres bonitas, as mulheres que circulam pelo mundo parecem no instante da inveja canceladas para mim — elas não têm a posse que as torna completas. Pois na inveja o que se quer é não a mulher — que existe sozinha lá no mundo, e pode ser feia ou bonita, pode estar próxima mas também distante, e pode me ver com atração ou desprezo — mas aquilo ali que vemos já num todo fechado, a posse da mulher bonita. Assim as coisas parecem estar enfim completas. Que a natureza, os triunfo, as mulheres, estejam disponíveis no mundo lá fora, isso pouco se me dá, pouco me importa. Os invejados são um todo, encaixe de duas partes, possuidor e posse. No ato da inveja os invejadores se cancelam como metades disponíveis para encaixes possíveis, como desfrutadores de coisas potencialmente deleitáveis. Porque já têm um modelo que os supera: o do desfrutador que já desfrutou

O desfrute ali é uma coisa já acontecida, segura, sem a liberdade de se deteriorar. Visto de fora, é maciço e sem buracos, sem poréns e sem matizes, sem nada que denuncie: o objeto é certamente deleitável, porém o deleite… O desfrute que estaria aberto ao invejador aparece como ontologicamente inferior, porque é sempre incerto: é possível sair à natureza e morrer de tédio com as árvores, as montanhas, o céu azul. É possível achar tudo isso legal, mas mesmo assim algo que não vale a pena de sair de casa. É possível ter desfrutado, e não ter nenhuma garantia da continuidade do desfrute.

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